domingo, 23 de setembro de 2012

Tempestade



Mostrando o quadro “Ventania” de Antonio Parreiras, a professora de história da arte pergunta: “Afinal, né, gente, quem é que nunca teve uma tempestade na vida? Mas a tempestade dura pra sempre?” A pergunta chega a ser quase retórica de tão piegas, mas eu não pude evitar ser afetada por essas palavras neste fim de semana. Também de quantas coisas no mundo podemos evitar ser afetados? A vida te vive de qualquer maneira. Eu ainda concordo com Nietzsche que só podemos mudar nossas atitudes e não aquilo que nos acontece. As palavras mais exatas dele seriam talvez assim: “O que importa não é o que mundo faz de você, mas sim o que você faz com aquilo que o mundo faz de você”. Eu entendo a coisa mais ou menos assim, é sempre um juntar de cacos infinito, um trabalhinho de Sísifo, porém ao contrário do deus, um trabalho necessário para quem ainda deseja (sobre)viver. Se a tempestade não dura para sempre o que dura então? A certeza de que outras tempestades virão, é certo. Por favor, não me rotulem de pessimista, minha reflexão vai além de enxergar o copo meio vazio.

Um comentário:

  1. Atribuem também a Sartre a frase “Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. Esse estado de angústia com quais escolhas fazer a partir deste mundo que nos é dado, no qual o sonho sonhado é sempre melhor do que o realizado, faz-nos buscar sentidos ou alívios, ainda que momentâneos. A liberdade nas muitas tempestades que vivemos e virão, de dádiva não tem nada. A sensação de alívio, aconchego ou algo assim é só uma ilusão ou alienação do nosso permanente estado de combate contra a intempérie que é viver. Cientistas já disseram que nosso cérebro é seletivo procurando escolher as boas lembranças e a fé nos dias melhores, impedindo que fiquemos loucos por causa do impertinente pessimismo. Esse mecanismo de seleção natural permitiu a permanência da espécie humana. Se é um mecanismo biológico, natural, então até a liberdade aventada anteriormente é só mais uma ilusão. A angústia não.

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