quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mentirinhas brancas

Faz muito tempo que eu não escrevo, na verdade muito tempo mesmo, eu comecei, mas meu blog quase não tem posts. Os motivos para isso foram a falta de assuntos interessantes sobre os quais escrever, falta de tempo pra escrever (se bem que quem quer de verdade sempre arruma tempo pra fazer as coisas das quais gosta, né), mas confesso que faltou também vontade da minha parte. Mas agora resolvi voltar a escrever, vou me esforçar para escrever com mais assiduidade porque recebi incentivo de um grande amigo. Esse meu amigo leu meu blog recentemente, e disse que gostou muito dos meus posts, fiquei super contente com essa notícia, e ele perguntou por que eu parei de escrever, então resolvi ressuscitar do mundo dos blogs zumbis O intensificador, que estava quase que jogado às moscas. Pensei em algo pra escrever, na verdade eu tenho muitas anotações em no meu caderno pessoal e no meu diário, e este post veio dessas anotações.
Eu não sou uma pessoa má, mas eu minto às vezes, na maioria das vezes para agradar, para impressionar e para me livrar de situações chatas, eu nunca menti sobre nada grave, também não me lembro de ter causado mal a alguém por isso, nunca causei problemas a ninguém por mentir, na verdade eu lembro é de ter livrado a cara de uma amiga com o pai dela com uma mentirinha, mas como a minha mãe diz mentira tem perna curta, e mesmo eu tendo livrado a cara dela naquele dia, o pai dela descobriu tudo mais tarde e nós duas nos ferramos bonito, mas enfim mentira é um recurso que eu só uso em último caso, até porque eu sempre fico me sentindo mal depois, e também porque acredito que amor e amizade só são possíveis com honestidade e sinceridade, mas aí eu penso: "não tinha outro jeito", analisando as consequências algumas vezes mentir parece ser a melhor opção. Apesar disso eu não me considero uma pessoa mentirosa, eu não costumo mentir sobre coisas sérias ou que prejudiquem outras pessoas, eu juro, mas acreditem em mim se quiserem, é claro. Estou pensando agora que talvez com este post meus amigos questionem a minha credibilidade, mas já que resolvi falar sobre esse tema delicado vou até o fim e ver no que dá.
Quando eu estava no catecismo e a minha catequista, a professora Sônia, como respeitosamente a chamávamos, foi questionada sobre o 9º mandamento, ela explicou o seguinte pra classe: "Dar falso testemunho é diferente, é um pecado afinal seja o seu não, não e o seu sim, sim, como diz na Bíblia,* mas mentirinhas brancas pode". Será que eu entendi direito? Você pode mentir se a mentira não prejudicar ninguém? Fiquei me perguntado. Bem, na minha cabecinha de oito anos eu entendi que sim e na minha cabeçona de vinte e três continuei entendendo que sim também. Durante uma discussão sobre o filme Desejo e Reparação, uma colega e eu tivemos uma divergência, que não foi sobre a beleza do filme, da história ou do James Macvoy, concordamos plenamente que a história é bem contada, a fotografia linda a cena de sexo amor na biblioteca é de tirar o fôlego, mas discordamos bem naquilo que, na minha opinião, não haveria dúvidas, pois a Briony é uma fuck lier descarada e covarde, a minha colega disse que não que a Briony não tinha certeza do que viu, que foi uma infantilidade, eu respondi que a sua falta de certeza e infantilidade haviam custado a felicidade de duas boas pessoas, e que já que a Briony não tinha certeza deveria ter dito que não tinha certeza, ué. Enfim, toda vez que eu encontro com essa minha colega a discussão sobre esse filme fica nesse impasse, ela defende a Briony e eu crucifico a Briony, eu adeio a Briony e a minha colega ama a Briony, tisc tisc, dilema sem solução, discussão sem acordo, assunto sem fim.
Quem ainda não assistiu a esse filme assista, o filme é basicamente sobre o tema da mentira e sobre a personagem Briony que passa o resto da vida tentando se redimir, de jeitos nada eficientes, da mentira que estragou a vida da sua irmã, Cecília, do Robbie, lindo, e a da própria Briony. Pra mim o único jeito de reparar uma mentira é contar a verdade, não adianta em nada limpar penicos de hospital, servir de enfermeira na guerra ou escrever um livro com final feliz, se não contar a verdade e ter coragem para aguentar as consequências, o que a Briony fez foi como cuspir na porta do vizinho do lado direito e ir limpar o chão do vizinho do lado esquerdo, a casa do outro continua cuspida, isso não faz sentido, não resolve a situação, a culpa pode até ser expiada, mas as consequências não são até contar a verdade, principalmente quando se sabe que prejudicou alguém.
Bom, como vocês devem ter percebido esse filme mexeu muito comigo e já faz um bom tempo que eu o assisti, mas mesmo assim continuo refletindo sobre ele e sobre o tema da mentira. Mas a mentirinha branca também existe no cotidiano profissional, é aquela situação que você vai no passo do malandro, como diz uma amiga minha, pra não deixar pior o que já está ruim: “O quê? O seu livro não está na prateleira? E consta como disponível no catálogo? Você veio de tão longe só pra pegar esse livro?! Deve ser porque tem outra pessoa usando o livro nesse exato momento dentro da biblioteca que ele não está no local certo. E em pensamento “Leitura de estante começa já amanhã, deve estar mesmo uma bagunça esse acervo, estamos com pouca gente na equipe, mas vamos ter que dar um jeito, e deixa eu anotar o nome desse usuário pra quando acharmos esse livro, puxa vida ele veio de tão longe só pra pegar esse livro...ai que droga”. Esse tema suscita em mim muitos questionamentos tanto sobre mentiras que destroem vidas, mentiras que beneficiam ainda que só temporariamente ou mentiras que são pra amenizar situações chatas.
Durante muito tempo antropólogos e biólogos, acharam que só o homem era capaz de mentir, mas descobriram que algumas espécies de macacos conseguem dissimular, por exemplo, não olhando para uma fruta madura na árvore na companhia de outros do bando e quando estão sozinhos abocanham a fruta pra se deliciarem isoladamente. O que me faz pensar que mentir é um recurso de inteligência e comunicação, ainda que em níveis diferentes, só os alguns primatas e nós humanos que temos essa capacidade. Mas é claro que o que realmente me preocupa são as questões éticas sobre esse tema de mentir para o bem. Qual seria o limite justo para mentir? Essa aula no catecismo eu ainda lembro bem porque foi a que mais me deixou reflexiva, ainda hoje deixa, se mentir fosse tão errado porque algumas vezes traz benefícios para as partes envolvidas? Seriam válidas aquelas máximas que ouvi durante a vida toda “A verdade dói, mas uma mentira dói mais ainda” e “O amor resiste a tudo menos a mentira”? E a humanidade se tornaria melhor sem a capacidade de mentir? Eu seria uma pessoa melhor se não mentisse nunca? Oscar Wilde disse que “não devemos fazer nada sobre o qual não possamos conversar depois do jantar” **, ou seja, se não quer dissimular não faça merda. Pra mim esse parece um conselho sábio.
Eu não tenho uma resposta geral pra todos os casos em que mentir seria ou não condenável, mas acredito em soluções para casos específicos, como no caso da Briony, se você mentisse, depois se arrependesse e tivesse a oportunidade de salvar a vida de uma pessoa contando a verdade, você não deveria fazê-lo? E na minha vida eu levo as coisas mais ou menos assim, quando você percebe que a coisa está preta é hora de contar a verdade, porque a mentira já deixou de ser branca faz tempo.

Bia K (Em busca da verdade perdida)

*(Mateus 5:37)
** O retrato de Dorian Gray p.232

Um comentário:

  1. Bia, esse seu amigo aí continua lendo seu blog viu?! ^^ E gostou muito desses seus últimos posts. Até num post de desabafo você escreve com elegância. ;D

    Mas bora falar sobre esse tema aí desse último post: Mentira é realmente tenebroso, mas tem uma grande diferença em mentir por mentir (ou para prejudicar alguém) e mentir pelo fato de que a sociedade não está preparada para ouvir a verdade (não sempre). Você sabe e eu sei que falar a verdade é o >nosso< primeiro recurso, e se por acaso não pudermos utilizá-lo em determinado momento não será por falha de caráter, mas por proteção (mais daquele q ta recebendo a mentira do q nossa). E é aí q entra a 'mentira branca', q ao meu ver é aquela q é usada pensando num bem maior (e q normalmente não acarretará num problema como o dessa moça aí do filme).

    Vixe, escrevi demais. Nós convivemos há tanto tempo e conversamos tanto q até compartilhamos dos mesmos dilemas! ^^

    Um Beijo, escreva sempre!

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