domingo, 21 de novembro de 2010

Amor acadêmico


A primeira vez que mirei aqueles olhos não conseguia mais parar de fitá-los, ele me percebeu, sorriu e piscou os olhos pra mim fazendo graça. Eram verdes e tinham um brilho envidraçado que me fascinava. Algo de muito bom vinha deles que me inspirava. A minha amiga disse: “Aquele tipo de verde a gente só encontra na Espanha”. Foi o suficiente pra que eu ficasse pensando neles. A segunda vez eu já estava mais preparada, eu sabia que iria encontrá-los e me organizei pra não fazer besteira. Nosso encontro foi no café da manhã, ele comeu, bebeu café, conversou comigo, ufa! deu tudo certo acho que consegui não falar nenhuma merda dessa vez, ele disse que nós tínhamos sotaque parecido com os italianos. Depois ele inteligentemente conquistou a todos naquele auditório com seu carisma e seu charme. Resistir, pra quê? Era hora de tirarmos as fotos, as outras garotas também queriam muito tietá-lo, mas eu fiz questão de ficar do lado dele na pose, ele me queria do lado dele também, eu senti, e apertou gentilmente a minha cintura um pouco mais do que deveria, era um sinal, ele não era indiferente a mim. Nossa despedida foi disfarçada, assim como nosso romance. Eu fui à sala dele entregar o certificado, mas passei em frente duas ou três vezes antes de entrar, tomava coragem, ele falava ao telefone, com quem? Aproveitei a chance de falar com ele já sabendo que provavelmente seria a última vez, entrei e entreguei. Ele olhou, leu com calma, passando o dedo por cima do papel, eu fiquei quieta, esperei, gostava daquele momento, não queria que acabasse muito rápido. Nós dois numa sala sozinhos...
- Então, professor tá tudo certinho agora?
- Ciertinho? Ma! Tá tudo mais que ciertinho!
- Então, professor quando é que o senhor volta pra Espanha?
- Em fin del este mês.
E ele me passou a agenda toda, as universidades que visitaria, as datas e ressaltou que ainda estaria ali de volta mais uma vez antes de partir. Eu entendi, era pra que voltássemos a nós ver mais uma vez.
- O senhor não gostaria de ficar aqui no Brasil, dar aulas aqui por uns... dois anos?
- Si, mas e a família como fica?
Família?! O que será que ele quis dizer com isso? Filhos? Ou esposa e filhos? Geralmente quando é família é a esposa e filhos. Acho que ao constatar isso eu devo ter feito uma cara bem triste, mesmo tentando disfarçar o sentimento que aquela palavra me causou, porque aí ele segurou com firmeza os meus braços, as minhas mãos e me encarou.
- Que tienes menina? Estás triste nos ojos!
Ele me adivinhou!!!
- Pois é, professor é que a Semana tá acabando, sabe...
- Si, si, sei bien, vocês trabalharon duro nisso, no é?
- É, então, é por isso que estou triste, a Semana tá acabando e vou sentir saudade das pessoas...
Não lembro como saí da sala dele direito, não lembro quais foram as últimas palavras que falei com ele, eu só lembro do Que tienes menina? Estás triste nos ojos! Dele piscando brincalhão pra mim, dele conversando só comigo no café e no brilho daqueles olhos. Teve mais coisas, mais momentos, mas o que vale a pena contar está aqui, depois ele pediu outra alteração no certificado, muito justa e pertinente, claro, fiquei pensando se ele queria que fosse eu de novo a fazer a entrega, mas desta vez eu não fui.

Bia K (meio Clarice Lispector hoje)

2 comentários:

  1. Estou gostando muito do seu blog, adorei o título hein? Vc já conhece o meu? Me visite quando quiser e traga biscoitos, rs www.canela-s.blogspot.com

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